Entry: Notas sobre o 11 de Setembro de 2001 Sunday, September 11, 2011



Segundo Marsílea Gombata, no site Ultimo Segundo:

"O que então vinha sendo, segundo as palavras do próprio presidente George H. W. Bush (1989-1993), pai de George W. Bush, "uma nova ordem mundial" baseada no triunfo dos valores americanos e da democracia liberal - depois da queda da URSS em 1991 - foi interrompido pelo dia fatídico que repentinamente mudou o curso da História."

Não se percebe qualquer "interrupção".

Os Estados Unidos continuam a maior potência militar, econômica e cultural do mundo. E assim devem continuar por muito tempo.

A cultura de americana de entretenimento, cinema, televisão e música popular, continua a seduzir as massas e mesmo muito intelectuais (e não se pode negar que, apesar de muitas tolices de mal gosto que fazem grande sucesso, se produz filmes e músicas de bom nível).

É verdade que a importância econômica de alguns países no mundo, como um todo, aumentou, enquanto a dos Estados Unidos diminuiu. Mas isso não aconteceu por causa do atentado de 11 de setembro, e sim porque alguns países deixaram de fazer as tolices que vinham fazendo por muitas gerações (1) e estão mais parecidos com os Estados Unidos do que estiveram ao longo do séculos XIX e XX, tanto nos defeitos quanto nas qualidades.

Alias, é algo que tem sido muito subestimado nas analises das relações entre os americanos e o resto do mundo, o bem que os Estados Unidos fazem como um bom modelo a ser seguido. Claro que nem o modelo é perfeito e nem sempre a imitação é bem feita. Mas mesmo assim, podemos dizer que os americanos fizeram muito mais bem do que mal, nesse sentido. Se hoje a maioria da América Latina é democrática é por influência americana. Um exemplo: os militares brasileiros nunca teriam derrubado Getúlio Vargas em 1945 para instalar um regime democrático (pelo menos, com o objetivo de ser democrático) se não fosse a admiração e o respeito que eles sentiam pelos americanos, e sua vontade de imitá-los. E isso não mudou com o atentado de 2001.

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

Diz Karleno Bocarro: Entre aqueles (romances) (…) que ficam no 11 de setembro há sim excelentes (...): Sábado, de Ian McEwan, Die Habenichtse, de Katharina Hacker, Extremamente Alto & Incrivelmente Perto, de Jonathan Safran Foer, Terrorista, de John Updike, e O Homem em Queda, de Don DeLillo".

Curiosamente, um livro muito revelador sobre a sociedade americana e os efeitos do atentado de 2001 foi escrito 4 anos antes por Philip Roth, Pastoral Americana. O personagem principal é o judeu liberal (2) Seymour Levov, chamado "O Sueco", que encarna as virtudes tradicionais da América: é trabalhador, honesto, empreendedor, dedicado à família e gosta de opiniões ponderadas. Apesar de suas boas intenções, de suas boas obras e de seus bons sentimentos em relação à sua família e com o resto do mundo só acontecem desgraças que ele não pode entender. Diante do 11 de Setembro de 2001, os americanos se viram na pele de Seymour Levov. As reações americanas, é verdade, foram bem diferentes das de Seymour Levov, mas os dilemas foram muito parecidos. Levov simplesmente não podia entender o que havia de tão errado assim em sua vida, e porque tanta coisa ruim lhe acontecia, apesar dele sempre fazer o que parecia ser o mais justo e o melhor a ser feito.

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

Para alguns, os Estados Unidos estão menos confiantes, menos seguros e menos livres (Less Confident, Less Secure, and Less Free). Analisando grosseiramente, podemos dizer que os Estados Unidos estão menos confiantes e mais desiludidos, mais sábios. Aprender é doloroso. Os americanos aprenderam alguma coisa no dia 11 de Setembro. Sim, é verdade que hoje há menos liberdade nos Estados Unidos. Porém mais inseguros, isso é o que os Estados Unidos com certeza não estão. O problema, para a segurança americana, não é tanto o ódio dos radicais muçulmanos e dos antiamericanos em geral, mas sim o desprezo. Bin Laden desprezava os americanos. Bin Laden contava que os americanos abandonariam seus aliados nos países árabes, inimigos políticos de Bin Laden. Podemos dizer que o tiro saiu pela culatra. Os americanos reagiram e os aliados de Bin Laden foram os que saíram perdendo, no final das contas. O próprio Bin Laden morreu por causa do atentado, muito longe de chegar ao poder na Arábia Saudita ou em qualquer nação muçulmana. Talvez hoje hajam mais lideres muçulmanos que são antiamericanos. Mas com certeza há menos lideres muçulmanos dispostos a patrocinar atentados terroristas contra os americanos do que há 10 anos atrás. Portanto, não está certo dizer que os americanos estão menos seguros. Na verdade, estão mais seguros. Porque são mais temidos.

São, também, mais odiados do que há 10 anos atrás. Mas ser odiado e temido é melhor do que ser desprezado, para nossa segurança.

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

As elites liberais (ver nota (2)) de Nova Iorque sempre desprezaram os americanos simples do vasto interior americano. Caipiras simplórios com vidinhas chatas e preconceitos tolos, os americanos do interior eram vistos com desdem e mesmo horror pelos sofisticados novaiorquinos e suas pretensões cosmopolitas. Esses novaiorquinos sofisticados e cultos têm grande influência em Hollywood e, através de Hollywood, em todo mundo. Eles usam essa influência para denegrir a imagem dos americanos mais conservadores e do próprio Estados Unidos, e para agradar os supostamente refinados e cultos europeus.

Mas quando aconteceu o atentado de 11 de Setembro, quem fez alguma coisa para tornar Nova Iorque e também toda América um lugar mais seguro foram os caipiras simplórios do interior americano, e os políticos ignaros reacionários que esses caipiras elegeram. As elites sofisticadas da Europa culta assistiram com desdém e um certo prazer a agonia dos novaiorquinos, e ficaram satisfeitas com o significado simbólico do atentado, como eles interpretaram, o fato da vulnerabilidade americana ter sido exposta de forma tão dolorosa. Os europeus, talvez até mais que os brasileiros, invejam os americanos, e também os desprezam, desprezo esse que a própria elite cultura da América compartilha e incentiva. Foi fácil para muitos europeus esquecer, logo após o choque inicial, que eram seres humanos as três mil pessoas que morreram. Os mortos logo se transformaram em símbolos dos problemas de quem os europeus invejam, portanto em motivo de satisfação.

Seria de se esperar que, com isso, os sofisticados "liberals" de Nova Iorque passassem a ver seus conterrâneos do interior dos Estados Unidos com outros olhos, e passassem também a ver os europeus "progressistas" como eles são: invejosos supostamente sofisticados, que vivem de afetar superioridade intelectual enquanto arrastam sua insignificância impotente até a morte, no processo estragando cada vez mais a outrora respeitável Europa.

Mas não foi o que aconteceu. (3)

Logo depois do susto, os novaiorquinos continuaram a ver os americanos do interior como rústicos idiotas e continuaram a tentar agradar os "sofisticados" europeus. E assim vão, até hoje.

Seria bom se houvesse alguém analisando esse comportamento da elite cultural americana e principalmente da elite cultural novaiorquina. Não encontramos uma analise assim em lugar nenhum. Ninguém, parece, se dispõe a isso.

Não podemos dizer o quanto esse comportamento da elite cultura novaiorquina prejudicou a eles mesmos e à sua cidade. Mas certamente não ajudou a desencorajar futuros ataques, e muito menos ilumina a nossa compreensão sobre o que acontece no mundo.

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

Disse Cláudio Avólio:
Google sucks big time!
Hoje, nos Estados Unidos, celebra-se o Memorial Day. A Google, que cria logos especiais para qualquer data de merda, não criou um para esta data tão importante para os EUA (e para o mundo). É aquela pirraça típica de adolescente que acabou de sair das fraldas e agora quer provar que é maior que os próprios pais.
Parabéns ao Yahoo!


Pois é, Cláudio. O Google também não criou um logo para os 10 anos do 11 de Setembro. (O Yahoo em inglês colocou uma faixa preta, talvez como luto).

Pelo jeito, os 65 anos de Freddie Mercury valem mais, para o google.

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

(1) No caso do Brasil, desde no mínimo 1930 temos sido "progressistas" em economia. Luiz Inácio Lula da Silva, repetindo nossa muito pouco culta elite cultural, diz que a "direita mandou no Brasil por 500 anos". Mas a verdade é que desde 1889 cada novo regime pode ser considerado à esquerda do anterior, com exceção do regime militar de 1964, por sinal o menos ruim de todos.

(2) Liberal no sentido americano, ou seja, politicamente correto em cultura e social-democrata em política. Seymour Levov pode ser chamado de liberal moderado, ainda que não se interesse muito por política.

(3) Houve exceções, é verdade, a mais celebre delas é Christopher Hitchens, o inglês mais novaiorquino do mundo. Muita gente não sabe, mas ele é bem conhecido no Brasil. Ele é Peter Fallow, o jornalista inglês bêbado de A Fogueira das Vaidades, o best-seller de Tom Wolfe

   0 comments

Leave a Comment:

Name


Homepage (optional)


Comments