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Tuesday, October 13, 2009
É a liberdade, estúpido! - Artigo de Robert Tracinski

Bem, é oficial. O fenômeno Obama acabou. Definitivamente.

Não se trata apenas de sua melhor arma, a oratória, não mais mobilizar a opinião pública (o discurso de quarta-feira, 16 de setembro, sobre o sistema de saúde, produziu um pequeno aumento da aprovação aos custos da reforma no sistema de saúde, mas isso desapareceu em menos de uma semana).

O que realmente encerra a era de Obama é isso: o simbolismo como primeiro presidente negro, o que supostamente dava aos americanos uma oportunidade de superar toda a feia história de sua política racial. No entanto, aqui estamos nós, com menos de oito meses de governo Obama, e a política racial nunca esteve tão ruim em muitos anos.

Poucos dias depois da grande manifestação do movimento Tea Party em Washington, os aliados de Obama na imprensa começaram a chamar os manifestantes de racistas. Isso foi dito por Jimmy Carter, e por Joe Klein, de Time, por Paul Waldman, de The American Prospect's, e por Paul Krugman e Maureen Dowd no New York Times, entre outros.

E onde estão as provas deles? Bem, eles não têm provas – só têm imaginações muito férteis. Krugman acha que a força propulsora por trás do movimento Tea Party é "provavelmente... uma apreensão cultural e racial", enquanto que, segundo Dowd, quando Joe Wilson disse que Obama mentia, "o que eu percebi é que havia no ar uma palavra não expressa: você mente, garoto!... (1) algumas pessoas simplesmente não podem acreditar que um negro é presidente e nunca aceitarão isso." Esses são os atuais padrões jornalísticos de Time: está certo atacar metade da população baseando-se no que você imagina que eles estão "provavelmente" pensando e em palavras que eles não disseram.

No mesmo padrão, Klein considera que se opor a Obama é racismo "implícito", enquanto o "psicólogo social" Thomas Pettigrew explicita o que significa a acusação de "racismo implícito": "A idéia geral é que pessoas que não admitem [racismo] em si mesmas procuram formas legítimas de seguir suas crenças sutis, algumas vezes até mesmo sem perceberem o que estão fazendo". Eis como um psicólogo social projeta em você seus próprios preconceitos sobre seu caráter e seus motivos – sem precisar conversar com você e ouvir o que você pensa.

E eles não perguntaram nem perguntam o que nós pensamos, nenhum deles. É obvio em todas as acusações de racismo que esses grandes repórteres não têm ido aos protestos do movimento Tea Party, não têm conversado com ninguém lá, não se preocuparam em saber quem somos nem no que acreditamos. Eles simplesmente projetaram em nós a mais feia motivação que tem na cabeça, sem necessidade de qualquer evidência para comprová-la. É uma das mais gratuitas campanhas de difamação que eu já vi.

Para uma dose de realidade, confira esta galeria de fotos tiradas por um de meus leitores na parada de sábado. A característica definidora dos comícios do movimento Tea Party, em especial do último sábado (2), é a grande quantidade de cartazes – a dominante forma de expressão do movimento. Você não tem que imaginar as palavras que aquelas pessoa não disseram ou projetar o que provavelmente estaria em suas mentes. Elas te dizem o que elas estão pensando, em cartazes feitos em casa, com grande variedade e criatividade. Alguns favoritos: "Eu pareço uma ATM para você?" (3); o sempre popular slogan "dê-me liberdade, não dividas" (4); "o congresso é um título [de dívida] podre" (5); "mercado livre, não esbanjamento" (6). E, principalmente quanto à questão racial: "Não interessa se o presidente é negro. Interessa se ele é vermelho." (7) O cartaz mais bizarro: uma autentica nota de um milhão de marcos da hiperinflação alemã dos anos 20, entre as palavras "nunca mais".

(se você for até mais ou menos a metade da galeria de fotos, você verá uma foto minha. Eu sou o homem com uma camisa azul carregando um grande cartaz com uma citação de Ayn Rand expressando este lema "racista": "Sua vida pertence a você e o certo é você vivê-la" (8). Certamente, palavras em código para Ku Klux Klan).

O tema comum dos cartazes foram direitos individuais em oposição ao coletivismo, uma defesa de governo limitado, obediente às restrições estabelecidas para ele na constituição. Um dos cartazes mostrado na galeria de fotos sintetiza a mensagem da parada do movimento Tea Party: "É a liberdade, estúpido!" (9)

O fato de o movimento Tea Party ter uma mensagem filosófica tão clara, e que as falsas acusações de racismo dificilmente conseguem vilificá-la, diz muito sobre a autoconfiança intelectual do movimento Tea Party – em contraste com a falta de autoconfiança filosófica da esquerda. Os membros do movimento Tea Party são muito felizes em ter um debate filosófico sobre as mais básicas questões políticas. A esquerda, em contraste, quer mudar o assunto com ofensas pessoais e ataques ad hominem – o que mostra que eles não acreditam poder vencer o debate se for sobre a questão do tamanho ou do papel do governo.

Dizer que a esquerda está recorrendo a "política racial" é um pouco vago demais. Deixem-me definir exatamente o que eles estão fazendo: eles estão recorrendo à política de racial difamação, velha de décadas, acusando, por reflexo condicionado, qualquer oponente de racismo numa tentativa de encerrar a discussão.

Racismo é um dos piores insultos que você pode usar contra alguém hoje, somente uns poucos degraus acima de acusá-lo de ser um pedófilo. Que seja assim é, na verdade, um tributo às heróicas mudanças na cultura americana nas últimas décadas. Em menos de 50 anos, a América evoluiu de um país onde a segregação era abertamente defendida e aplicada a um país onde uma acusação de até mesmo racismo indireto pode arruinar uma carreira. É só perguntar a Don Imus (10). Mas isto tem sido usado como uma arma – um cassetete de intimidação nas mãos da esquerda.

A campanha daltônica (11) de Barack Obama, a idéia de que ele estava concorrendo como se raça não importasse, prometeu-nos uma salutar ruptura desta história. Houve indicações desde o começo, no entanto, que ele realmente não pretendia que tivesse este significado. Obama teve que fazer vários malabarismos a respeito de sua intima e duradoura ligação o pastor Jeremiah Wright, um agitador racial (12), e ele se manteve a uma distância olímpica e confortável, enquanto seus cabos-eleitorais usavam acusações de racismo como uma arma contra a campanha de Hilary Clinton.

Se ele pode agir assim na primária democrata, não há razão para pensar que ele se oporá àqueles que estão fazendo isso novamente agora. Obama alega não querer se envolver com a atual campanha de difamação racial – mas lideres não têm essa opção. Permanecendo em silêncio, ele está dando sua concordância. Ele está se abstendo quanto à volta da difamação racial na política americana. Isto é um enorme desapontamento para muitos que uma vez votaram em Obama – e para muitos outros, como eu mesmo, que uma vez viram um elemento de nobreza em sua campanha, mesmo se nós discordássemos de tudo o ele representava.

Se Obama não rejeitar imediatamente e decididamente a nova difamação racial contra o movimento Tea Party, ele destruirá a última porção de seu apelo junto ao eleitorado – e terá feito milhões de novos e passionais inimigos entre o público votante.


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(1) Nota do tradutor – no original, está "You lie, boy!", e "boy" era um termo pejorativo usado pelos brancos contra os negros no tempo da segregação racial.
(2) Nota do tradutor - dia doze de setembro.
(3) "Do I Look Like an ATM to You?" Nota do tradutor - ATM é sigla de "automated teller machine", ou seja, caixa eletrônico.
(4) "Give Me Liberty, Not Debt."
(5) "Congress Is a Toxic Asset."
(6) "Free Markets Not Free Loaders."
(7) "It Doesn't Matter the President Is Black. It Matters That He's Red."
(8) "Your life belongs to you and the good is to live it."
(9) "It's the Liberty, Stupid." Nota do tradutor – é uma paródia de "it's the economy, stupid", uma frase usada pela campanha de Bill Clinton, em 1992, contra o então presidente George H.W. Bush. Como Bill Clinton venceu, a frase se incorporou ao jargão político americano.
(10) Nota do tradutor - John Donald "Don" Imus, Jr. é um celebre radialista americano, que se envolveu em várias polemicas por seus comentários politicamente incorretos.
(11) Nota do tradutor – a expressão em inglês usada pelo autor, "color-blind", é sinônimo de daltonismo, mas é também uma expressão americana que descreve serviços prestados sem considerações pelas características raciais dos envolvidos, e não há tradução em português.
(12) Nota do tradutor – a expressão em inglês usada pelo autor, "race-bating", é um adjetivo usado para atos ou pessoas que usam uma retórica racial para intimidar outras pessoas, e não há tradução em português.

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Este artigo foi publicado no seguinte link: http://www.realclearpolitics.com/articles/2009/09/20/its_the_liberty_stupid_98387.html

Posted at 11:10 pm by garciarothbard
Comments (1)

Saturday, March 29, 2008
O que diz muito sobre o Brasil e alguma coisa sobre a América

A série Queridos Amigos acabou. Mas antes de acabar, uma das personagens femininas reconheceu o homem que a torturou. Torturou por que, o que ela fez? Segundo o site da novela, nada: era uma idealista que acreditava em democracia e liberdade, só isso. Ela nem estava envolvida na luta armada (luta armada = terrorismo). Acredite quem quiser.

O pior é que tem muita gente que acredita nisso.

Não, o pior mesmo é que tem muita gente que vê isso na Globo, acredita e ainda sai por aí dizendo que a Globo é de direita.

De qualquer forma, o mais interessante são as diferenças entre brasileiros e americanos. Nos filmes e novelas americanas, um terrorista (ou cúmplice de terroristas) é reconhecido por uma de suas vítimas, ou pelo parente de uma de suas vítimas. A pessoa que reconheceu o terrorista o caça. Às vezes, mata o terrorista. Outras vezes, o entrega para ser julgado. Outras vezes ainda, o terrorista morre por sua própria culpa. De qualquer forma, a justiça é sempre feita e o bem vence o mal.

No Brasil, as vitimas do terrorismo nunca mereceram ser personagens de filme nenhum. E muito menos tiveram a chance de fazer justiça contra os terroristas, nem na ficção.

Aqui, o que acontece é o terrorista ou simpatizante, como no caso da Bia (a personagem que reconheceu seu torturador na minissérie que acabou de acabar) reconhecer um dos homens que estavam combatendo o terrorismo. E aí, se tenta fazer justiça contra o torturador. O site da minissérie, de onde tirei as informações, nada diz sobre o que aconteceu com o torturador. Parece que ele conseguiu escapar. Eles nunca enfrentam um julgamento justo. Afinal, torturadores estavam a serviço da elite e a elite é protegida pela impunidade. Essa, uma das teses (para usar um termo que lhes agrada) defendida por eles. Se a justiça for feita, a tese se enfraquece, logo é preciso que o bandido continue impune.

Mas, já perceberam uma das diferenças entre o Brasil e a América?

Lá, o vilão da história é o criminoso. Aqui, é quem combate os criminosos.

Se poderia ainda argumentar que uma obra de arte (ou uma tentativa de fazer uma obra de arte, ao menos) é "complexa", e nesse caso os personagens devem refletir a complexidade da vida. Assim, o lado certo pode ter pessoas ruins, e o lado errado pode atrair pessoas boas. Um terrorista pode ter bons sentimentos, um policial que combate o terrorismo pode ser um canalha. Seria um argumento a considerar, se não fosse o fato que em nenhum momento se mostra que o terrorismo é essencialmente ruim, e a tentativa de deter o terrorismo é justa e certa. O lado bom é onde estão todos os de bons sentimentos, o lado ruim é onde estão todos os homens maus. E, posto assim, que é como o típico filme (ou a minissérie) brasileiro apresenta a questão, não se trata de forma alguma de arte e nem mesmo de tentativa de fazer arte, mas de propaganda pura e simples.

Um ultimo argumento devemos considerar: os americanos também apresentam a situação de uma forma bem simplória. Quando eles fazem um filme sobre o assunto, com intenção de terem grande sucesso comercial, eles colocam todos os bons na luta contra o terrorismo, e todos os canalhas pelo terrorismo. Logo, eles fazem propaganda como os cineastas e noveleiros brasileiros fazem, só que com o sinal invertido.

Ao argumento descrito logo acima devemos objetar que, já que é só uma questão de propaganda e não de tentar mostrar a complexidade da vida, então ainda assim não há duvida da superioridade moral americana, nesse caso. É claro que tentar deter o terrorismo é melhor moralmente que fazer parte do terrorismo, mesmo que apenas como simpatizante. Ao aceitar o argumento descrito logo acima como verdadeiro, então forçoso é concluir que eles escolheram fazer propaganda para o bem, e nós para o mal.

E nem ao menos é verdade que os americanos fazem propaganda pelo bem, apenas. Eles têm uma das coisas que mais fazem falta ao Brasil, uma autentica pluralidade de pensamento. Lá, há os filmes que fazem propaganda contra o terrorismo, e também filmes que fazem propaganda do terrorismo. E há filmes com pretensão a obra de arte, que mostra homens bons no lado errado e homens ruins no lado certo. Certamente, houve casos assim. Certamente, houve pessoas honradas que recorreram ao terror contra opressores sem honra. E certamente houve, entre os que combateram o terrorismo, pessoas perversas que cometeram crimes horríveis. Mas é muito mais provável que haja grandes canalhas entre os terroristas. E é muito mais provável que os homens honestos e honrados estejam combatendo os terroristas. Essa é uma verdade que alguns noveleiros e cineastas americanos aprenderam. Nenhum noveleiro ou cineasta brasileiro sabe disso.

Posted at 06:54 pm by garciarothbard


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