Muita gente na direita está triste com os resultados das eleições americanas. Não acho que há razão para isso. Não muita.
Os republicanos, com Bush, têm um projeto de levar a democracia ao Oriente Médio (Eu acho que acreditar nisso é mais razoável que acreditar que essa guerra é só por causa do petróleo). Os democratas, sem nenhuma alternativa a Bush em política externa, tem vários projetos socialistas em política interna. O plano de Bush me parece mais necessário que os projetos dos democratas. Mas o partido de Bush perdeu o controle do legislativo nos EUA.
Isso pode significar que Bush passará dois anos como um impotente na casa branca. Pode significar, o que é mais provável, que os dois partidos terão que trabalhar juntos. Se por causa da oposição no congresso Bush não puder governar e acontecer mais uma tragédia como o atentado de 2001, o partido democrata será cobrado pelo público, e os democratas sabem disso. Se a oposição obrigar o governo americano a abandonar o povo do Iraque aos terroristas, e disso resultar uma crise no petróleo ou uma ditadura ferozmente antiamericana, o partido democrata será cobrado pelo público, e os democratas sabem disso. Bush, por seu lado, parece ser um homem disposto a fazer concessões a oposição em troca de apoio na questão do Iraque. Bush conviveu bem com uma maioria hostil, quando era governador do Texas. E Reagan, que nunca teve maioria na câmara americana, fez um ótimo governo. Então, o que provavelmente teremos nos próximos dois anos, será a mesma política, só que com mais cuidados. Isso, além do mais, para mim era uma tendência do governo Bush, que viria mesmo sem a derrota de agora.
Eu também acho melhor assim.
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O mais triste, e deveria ser triste para todo mundo que se interessa pelo assunto, é a comparação entre o caso americano e o caso brasileiro, no tocante ao equilíbrio e a harmonia entre os poderes executivo e legislativo.
Nos Estados Unidos, se sabe já que Bush será minoria no congresso, mas também se sabe que se Bush conseguir convencer o povo americano que um projeto é bom este será aprovado. O debate junto à opinião pública continua tão ou mais importante que manobras nos bastidores.
A mim, não é possível imaginar um esquema como o do "mensalão" para garantir maioria ao governo federal na América. Também me é quase impossível imaginar que um congresso brasileiro vote contra suas convicções (ou, mais provavelmente, falta delas) por pressão popular. Aqui no Brasil, todos sabiam que qualquer que fosse o vencedor das ultimas eleições, Lula ou Alckmin, este teria maioria na câmara. Como todo mundo sabe que muitos deputados serão subornados por Lula, e seriam por Alckmin. Como todo mundo sabe que a opinião pública seria ignorada, por qualquer um dos dois (alias, foi para isso que construíram Brasília).
Quem se interessou ou se alegrou com a vitória dos democratas e a derrota de Bush, deveria mais estar triste pelo Brasil.
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Há em Bush uma coisa que sempre me entristeceu: o seu gosto pela pena de morte, para agradar o eleitorado. Quando o Bush era governador do Texas, o estado era um dos campeões de execuções nos Estados Unidos. Isso não dependia só dele, claro: o judiciário texano era muito favorável à pena de morte, como era a opinião pública do Texas.
Eu já tinha comentado isso um pouco, aqui mesmo, se não me engano. Agora, a pena de morte voltou, e voltou com fins eleitorais: Saddam foi condenado à morte, para favorecer os republicanos. A maioria dos iraquianos também acharia muito boa a morte de Saddam. A maioria dos americanos também, pelo jeito.
Democraticamente, se matou gente no Texas. Democraticamente, se matará gente no Iraque. Quando a maioria quer matar, num regime democrático, alguém sempre morre. E não se enganem: se dependesse do povo, o Brasil também teria a pena de morte. É possível pensar em um argumento melhor contra a democracia que a pena de morte. Mas é difícil.