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Saturday, March 29, 2008
O que diz muito sobre o Brasil e alguma coisa sobre a América

A série Queridos Amigos acabou. Mas antes de acabar, uma das personagens femininas reconheceu o homem que a torturou. Torturou por que, o que ela fez? Segundo o site da novela, nada: era uma idealista que acreditava em democracia e liberdade, só isso. Ela nem estava envolvida na luta armada (luta armada = terrorismo). Acredite quem quiser.

O pior é que tem muita gente que acredita nisso.

Não, o pior mesmo é que tem muita gente que vê isso na Globo, acredita e ainda sai por aí dizendo que a Globo é de direita.

De qualquer forma, o mais interessante são as diferenças entre brasileiros e americanos. Nos filmes e novelas americanas, um terrorista (ou cúmplice de terroristas) é reconhecido por uma de suas vítimas, ou pelo parente de uma de suas vítimas. A pessoa que reconheceu o terrorista o caça. Às vezes, mata o terrorista. Outras vezes, o entrega para ser julgado. Outras vezes ainda, o terrorista morre por sua própria culpa. De qualquer forma, a justiça é sempre feita e o bem vence o mal.

No Brasil, as vitimas do terrorismo nunca mereceram ser personagens de filme nenhum. E muito menos tiveram a chance de fazer justiça contra os terroristas, nem na ficção.

Aqui, o que acontece é o terrorista ou simpatizante, como no caso da Bia (a personagem que reconheceu seu torturador na minissérie que acabou de acabar) reconhecer um dos homens que estavam combatendo o terrorismo. E aí, se tenta fazer justiça contra o torturador. O site da minissérie, de onde tirei as informações, nada diz sobre o que aconteceu com o torturador. Parece que ele conseguiu escapar. Eles nunca enfrentam um julgamento justo. Afinal, torturadores estavam a serviço da elite e a elite é protegida pela impunidade. Essa, uma das teses (para usar um termo que lhes agrada) defendida por eles. Se a justiça for feita, a tese se enfraquece, logo é preciso que o bandido continue impune.

Mas, já perceberam uma das diferenças entre o Brasil e a América?

Lá, o vilão da história é o criminoso. Aqui, é quem combate os criminosos.

Se poderia ainda argumentar que uma obra de arte (ou uma tentativa de fazer uma obra de arte, ao menos) é "complexa", e nesse caso os personagens devem refletir a complexidade da vida. Assim, o lado certo pode ter pessoas ruins, e o lado errado pode atrair pessoas boas. Um terrorista pode ter bons sentimentos, um policial que combate o terrorismo pode ser um canalha. Seria um argumento a considerar, se não fosse o fato que em nenhum momento se mostra que o terrorismo é essencialmente ruim, e a tentativa de deter o terrorismo é justa e certa. O lado bom é onde estão todos os de bons sentimentos, o lado ruim é onde estão todos os homens maus. E, posto assim, que é como o típico filme (ou a minissérie) brasileiro apresenta a questão, não se trata de forma alguma de arte e nem mesmo de tentativa de fazer arte, mas de propaganda pura e simples.

Um ultimo argumento devemos considerar: os americanos também apresentam a situação de uma forma bem simplória. Quando eles fazem um filme sobre o assunto, com intenção de terem grande sucesso comercial, eles colocam todos os bons na luta contra o terrorismo, e todos os canalhas pelo terrorismo. Logo, eles fazem propaganda como os cineastas e noveleiros brasileiros fazem, só que com o sinal invertido.

Ao argumento descrito logo acima devemos objetar que, já que é só uma questão de propaganda e não de tentar mostrar a complexidade da vida, então ainda assim não há duvida da superioridade moral americana, nesse caso. É claro que tentar deter o terrorismo é melhor moralmente que fazer parte do terrorismo, mesmo que apenas como simpatizante. Ao aceitar o argumento descrito logo acima como verdadeiro, então forçoso é concluir que eles escolheram fazer propaganda para o bem, e nós para o mal.

E nem ao menos é verdade que os americanos fazem propaganda pelo bem, apenas. Eles têm uma das coisas que mais fazem falta ao Brasil, uma autentica pluralidade de pensamento. Lá, há os filmes que fazem propaganda contra o terrorismo, e também filmes que fazem propaganda do terrorismo. E há filmes com pretensão a obra de arte, que mostra homens bons no lado errado e homens ruins no lado certo. Certamente, houve casos assim. Certamente, houve pessoas honradas que recorreram ao terror contra opressores sem honra. E certamente houve, entre os que combateram o terrorismo, pessoas perversas que cometeram crimes horríveis. Mas é muito mais provável que haja grandes canalhas entre os terroristas. E é muito mais provável que os homens honestos e honrados estejam combatendo os terroristas. Essa é uma verdade que alguns noveleiros e cineastas americanos aprenderam. Nenhum noveleiro ou cineasta brasileiro sabe disso.


Posted at 06:54 pm by garciarothbard


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