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Thursday, January 19, 2006
Lima Barreto

Lá estou eu lendo um artigo sobre Lima Barreto e dou com este trecho:

 

Os "bíblias"

 

    Ao descrever o subúrbio, Lima Barreto aborda o advento dos "bíblias", os protestantes que alugam uma antiga chácara e passam a conquistar novos fiéis para seu culto:

 

    "Joaquim dos Anjos ainda conhecera a "chácara" habitada pelos proprietários respectivos; mas, ultimamente, eles se tinham retirado para fora e alugado aos "bíblias"... O povo não os via com hostilidade, mesmo alguns humildes homens e pobres raparigas dos arredores freqüentavam-nos, já por encontrar nisso um sinal de superioridade intelectual sobre os seus iguais, já por procurarem, em outra casa religiosa que não a tradicional, lenitivo para suas pobres almas alanceadas, além das dores que seguem toda e qualquer existência humana."

 

    E reflete sobre a nova seita:

    "Era Shays Quick ou Quick Shays daquela raça curiosa de yankees fundadores de novas seitas cristãs. De quando em quando, um cidadão protestante dessa raça que deseja a felicidade de nós outros, na terra e no céu, à luz de uma sua interpretação de um ou mais versículos da Bíblia, funda uma novíssima seita, põe-se a propagá-la e logo encontra dedicados adeptos, os quais não sabem muito bem por que foram para tal novíssima religiãozinha e qual a diferença que há entre esta e a de que vieram."

 

    A crítica às "novas seitas cristãs" revela também a ojeriza de Lima Barreto à influência americana no Brasil. Como o colocou Antônio Arnoni Prado, o autor de Clara dos Anjos "interessou-se pelos Estados Unidos, em virtude do tratamento desumano que este país dispensava aos seus cidadãos de cor. (...) Censurou duramente a discriminação racial americana, assim como o expansionismo imperialista dos 'yankees', que, através da diplomacia do dólar, ia, a seu ver, convertendo o Brasil num autêntico protetorado."  Nada mais profético.

 

O antiamericanismo está em toda parte. Para aqueles que acham "legal" e muito razoável dizer que o pró-americanismo é tão ruim quanto o antiamericanismo - eu desafio a encontrar besteira semelhante pró-americana em algum estudo, ensaio ou artigo com pretensão a seriedade. Só esta pesquisa já basta para qualquer pessoa razoável concluir que por mais errado que estejam os EUA ou seus admiradores, mesmo assim, ser pró-americano é melhor que ser anti.

 

Quando o Brasil se transformou em um protetorado americano? Até onde eu sei nunca um governo brasileiro recebeu uma ordem dos Estados Unidos para nossa política externa - e sem isso não se pode de jeito nenhum dizer que somos ou fomos em alguma época um protetorado. O "alinhamento automático" da política externa brasileira, para mim, tem duas explicações: Associação dos anticomunistas brasileiros com o anticomunismo internacional, representado principalmente pelos EUA, e morosidade burocrática: um governo recebe essa herança do anterior, como por exemplo Costa e Silva recebeu de Castelo Branco, e continua, sem maiores pretensões. É uma política externa de origem interna. Não se pode falar em "protetorado".

 

A "Diplomacia do dólar" é um termo um tanto vago. Não há maiores detalhes no texto. Talvez Lima Barreto (ou Antônio Arnoni Prado) se referisse aos investimentos e empréstimos que nos colocariam a mercê do governo americano. Esses investimentos, é claro, são privados, e sua origem também é antes interna que externa: a falta de capital nacional nos países da América do Sul atraiu os investimentos externos, e as necessidades de pagar as contas dos gastos de nossos políticos e burocratas, e suas quase sempre desastrosas obras públicas, criaram as "dívidas externas". Certamente o governo americano defendeu uma vez ou outra suas empresas na América do Sul. Nunca conspirou contra um governo apenas por isso.

 

Na época em que Lima Barreto escrevia Clara dos Anjos os EUA ocupavam militarmente o Haiti. Nesse caso a preocupação de Lima Barreto se justifica, em parte. O tempo mostrou, afinal de contas, que a intervenção de Wilson no Haiti não se definiu como um padrão da política externa americana. Podemos então compreender as preocupações de Lima Barreto, mas não a do crítico Antônio Arnoni Prado, que deveria saber muito bem que não havia mais riscos dos países latino-americanos se transformarem em "protetorados", na época em que escreveu sobre Lima Barreto.

 

A "discriminação racial americana" era oficial (se refletia nas leis dos estados americanos) e realmente era um grave problema social naquele tempo. Mas isso seria um problema só dos Estados Unidos? No próprio livro de Lima Barreto se mostra exemplos de racismo no Brasil. Não é estranho que as mesmas pessoas (vá lá, quase todas) que falam em racismo para atacar os EUA insistem que no Brasil também há racismo? Um bom exemplo é a próprio autor do citado artigo sobre Lima Barreto.


Posted at 12:27 pm by garciarothbard


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